Antes de começar, vou pedir a você que faça um exercício. Pare e pense nas últimas empresas em que você trabalhou: você sabia por que e para que estava trabalhando? Se a sua resposta for “para o lucro da empresa”, o que é bem plausível, também é possível que você não tivesse o menor conhecimento sobre o propósito da empresa – e que a organização talvez fosse incapaz de passar esse valor aos  funcionários. O que te movia a acordar todo santo dia para ir trabalhar? O salário? Wrong answer.

Missão, visão, valores e propósito

“Mas a empresa tem missão, valores. Por que precisaria de um propósito?”, você poderá perguntar. Porque o propósito não é nem a visão, nem a missão e nem os valores, como explica a Harvard Business Review. Simples assim. Um propósito real, verdadeiro e palpável dá um motivo tangível para que decisões sejam tomadas e, tarefas, executadas. Enquanto a missão descreve o negócio, a visão indica onde a empresa estará em alguns anos e os valores descrevem a cultura, o propósito inspira e dá orientação prática.

Dou como exemplo o Grupo Algar, que defende que uma estratégia de longo prazo não sobrevive sem um propósito forte – e o deles é “Gente servindo gente”. É ao mesmo tempo o slogan do grupo e também o mote em que se baseiam todas as estratégias. Se você perguntar a algum colaborador de qualquer empresa do grupo, ele deve dizer que o que o faz sair de casa todo dia é servir as pessoas.

HBR traz outros exemplos de propósitos: da empresa de serviços financeiros ING (“Empoderando pessoas para estarem um passo à frente na vida e nos negócios”), da gigante da alimentação Kellogg (“Nutrindo famílias para que elas floresçam e prosperem”) e da seguradora IAG (“Ajudar as pessoas as gerenciar risco e a se recuperar da dificuldade de uma perda inesperada”).

O propósito é um motivo para se orgulhar, para acreditar que o seu trabalho tem impacto em algum lugar. Ele é um norte e deve ser claro e compartilhado por todos, como um compromisso moral. Com isso, o lucro que eu falei lá no começo vem naturalmente.

Produtividade

Se a justificativa moral não te convenceu, porque você é muito pragmático(a) e só olha para os resultados, listarei alguns bons motivos para se preocupar em espalhar entre seus colaboradores o propósito da empresa. E não sou eu que estou falando, mas Rebecca Henderson, professora de Harvard. Adotar um propósito na empresa traz:

  • Compartilhamento de crenças e opiniões, fazendo com que as pessoas trabalhem pesado e com melhor desempenho
  • Autenticidade à organização, estimulando os colaboradores a acreditar no que realizam e a estreitar o relacionamento entre si
  • Identidade, aumentando a confiança entre todas as instâncias da organização

Rebecca diz ainda que ter propósito está associado a práticas de alta performance no trabalho, e que ele é um motor para a inovação.

Na maioria das empresas, no entanto, as pessoas “fazem o seu trabalho”, sem animação ou motivação. Sem compartilhar pensamentos, sem acreditar que estão fazendo diferente e sem se identificar com a marca ou com os colegas. Elas produzem muito menos e pior do que as pessoas que têm um propósito claro.

Imagine um estádio lotado e o metrô na hora do rush. As pessoas que formam a torcida de um time de futebol não se conhecem, mas estão conectadas por um propósito – que é ver seu time do coração vencer. Elas vão ao estádio, torcem, vibram, sofrem na perda e comemoram na vitória. Já as pessoas que estão lado a lado no metrô lotado não têm nada em comum, a não ser o fato de morar na mesma cidade e pegar o mesmo transporte público todos os dias. Elas não têm um propósito compartilhado e, por isso mesmo, são apáticas umas com as outras, e até mesmo hostis (dependendo do quão apertadas estão). Elas são como os funcionários da empresa sem propósito: seguem o caminho de olho no celular, sem olhar para o passageiro ao lado.

 O segredo do sucesso

Fast Company diz que um senso de propósito forte é bom para os negócios. E eu concordo. “Um propósito mobiliza as pessoas de uma forma que a busca pelo lucro por si só nunca o fará. Para uma empresa prosperar, ela precisa incutir seu propósito em tudo o que faz.” O autor do artigo vai além: diz que uma empresa sem propósito gerencia pessoas e recursos. A que tem um propósito, por outro lado, mobiliza pessoas e recursos.

O artigo dá algumas dicas de como ter sucesso com o seu propósito:

  • Seja autêntico
  • Contrate pessoas que compartilhem seu propósito (certifique-se disso na fase de recrutamento)
  • Crie valor social e econômico compartilhado
  • Componha uma narrativa simples e clara para o seu propósito

O propósito tem que ser mais do que palavras

Rebecca Henderson diz que um propósito sozinho não é o suficiente. Acontece o mesmo com a missão, visão e valores. Se eles não forem compartilhados por todas as hierarquias da empresa, não passarão de reles frases jogadas e documentadas. O propósito tem que ser mais do que palavras, conforme Nate Dvorak and Bryant Ott escrevem para a consultoria Gallup. De acordo com os autores, as empresas enfrentam um desafio complicado: o que ela deseja como propósito vs. a marca e a cultura que os colaboradores criam através de suas ações.

proposito_gallup

Segundo um estudo da própria Gallup, apenas um terço dos trabalhadores americanos concordam que a missão ou o propósito das empresas onde trabalham os faz sentirem que seu trabalho é importante. O desalinhamento entre propósito, cultura e marca custa dinheiro. Mas o mesmo estudo descobriu que funcionários alinhados com o propósito performam melhor que aqueles não alinhados – por isso a importância de saber disso na hora da contratação, como disse no item anterior.

Por último, mas não menos importante, o propósito também afeta a habilidade da empresa de assegurar a entrega do que é prometido pela marca e de desenvolver clientes altamente engajados. Que organização não sonha em ter clientes que também são fãs?

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